[Encontro 1] - 26/08 - Ciranda de Leitura Online - Grande Sertão: Veredas

Atualizado: Ago 27


Realização: A Casa Frida & Confraria da Padoca




Sejam muito bem-vindos à leitura do livro Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa.


Este projeto foi concebido em parceria pela Confraria da Padoca Filosófica e o Grupo A Casa Frida.


Recomendamos que a leitura NÃO seja feita pelo PDF que enviamos. Não há nada melhor que ter um livro físico nas mãos e, seguindo os caminhos de Guimarães, ter um bloco de anotações com um lápis para deixar guardado partes importantes dessa travessia.


Recomendamos a edição de bolso da Companhia das Letras (pelo valor acessível, ou adquirida através da cesta temática criada especialmente para este evento - maiores informações no site padocafilosofica.com.br/cestasartesanais ), vamos nos enveredar até a página 63.


As demais edições deverão ser lidas até a diagramação final do PDF do material de apoio.



Os encontros vão acontecer toda última quinta-feira do mês, das 19:30 às 21:00 hs, por dez meses consecutivos.

O material de apoio vai ser enviado por e-mail nos dias subsequentes das cirandas.

A cada encontro, DEVERÁ SER FEITO UMA NOVA INSCRIÇÃO para que possamos enviar o link.

Selecionamos algumas passagens do nosso último encontro, e alguns textos e partes de conhecedores da obra para iniciarmos esta jornada.

Qualquer dúvida, estamos à disposição para maiores informações.


Material de apoio [Encontro 1: 26/08] Grande Sertão: Veredas


Em meio a "redemunhos", labirintos, lembranças, tiros, guerras, pobreza, miséria; há que se descortinar a poesia - seja nos rios, nas pedras, nos pássaros, na paisagem e principalmente dentro de cada personagem criado por Guimarães, que guarda um pedacinho de cada um de nós.


Odilon Esteves abre nossa ciranda encantada


Ao leitor que está iniciando na travessia do Grande Sertão, não se admire caso falte entendimento sobre a história. Observe algumas passagens das primeiras páginas que "desorientam" o leitor:


"No mato, o medo da gente se sai ao inteiro, um medo propositado."

É preciso coragem para seguir os primeiros parágrafos do livro, seguimos "rasgando matos" nas primeiras páginas da obra.


“Ai, arre, mas: que esta minha boca não tem ordem nenhuma. Estou contando fora, coisas divagadas.”

Nos deparamos com a escrita não cronológica do herói Riobaldo.



Guimarães Rosa e Paulo Rónai


Três motivos em Grande Sertão: Veredas

Paulo Rónai

(Prefácio da 21. Edição da Editora Nova Fronteira)


Mal emergido dos dois compactos volumes do Corpo de Baile e resistindo a custo à vontade de relê-los, eis-me às voltas com uma nova obra do autor, tão substanciosa como aquela, e não menos hirsta de obstáculos nem menos rica de compensações. Como prêmio do esforço exigido pela leitura, saímos dela com a impressão de termos participado um pouco da obra de ficção, de termos compartilhado não só as vicissitudes das personagens, mas também a alegria criadora do autor.

Essa impressão faz esquecer o susto que se tem à entrada, ao sopesar o volume grosso, bloco maciço, sem claros, sem divisão em capítulos, sem índice. Ainda mais: que vem a ser esse título estranho, com dois pontos no meio? A linguagem condensada, elíptica, regional e individual ao mesmo tempo, embora dentro da linha dos livros anteriores, impõe ao interesse um período de adaptação. Além disso, a história tarda a começar, o narrador parece experimentar vários rumos, embrenha-se num atalho, marca passo, desvia-se, volta ao ponto inicial, recomeça a ação, parece fragmentar-se num labirinto de episódios desconexos. Mas, lembrados de Sagarana e Corpo de Baile, confiemo-nos ser reserva ao autor, sigamo-lo por seus caminhos tortuosos: de repente, após uma travessia do rio São Francisco, ele nos faz desembocar numa estrada real, de horizonte dilatado, por onde a história se desenrola ampla, épica irresistível, levando de roldão qualquer estranheza ou resistência.


Daí em diante, os mistérios do princípio elucidam-se progressivamente, as digressões revelam-se começos de rotas convergentes, episódios que pareciam deslocados se reatam ao tronco da narração, alusões obscuras ganham caráter de antecipação e presságio. Descobrir tais entrelaçamentos é um dos altos prazeres da leitura; assinalá-los, ainda que parcialmente, talvez não seja prestar bom serviço ao autor.

Mas limitarmo-nos a registrar apenas o nosso encantamento ou assinalar a intensidade da nossa emoção seria atitude ainda mais inadequada. "O dever de que pretende falar ao público nas obras alheias é fazer todo o esforço necessário para entendê-las ou pelo menos determinar as condições e os constrangimentos que o autor se impôs e que se lhe impuseram"- escreve Paul Valéry, acrescentando esta observação, que diríamos concernir especialmente aos livros de Guimarães Rosa: "Achar-se-ia então que a clareza, a simplicidade e abundância resultam geralmente no uso das ideias e das formas existentes e familiares; o leitor se reconhece nelas, às vezes embevecido. Mas os opostos dessa qualidade significam às vezes intenções de um grau mais elevado."

A significação do título se aclara sucessivamente por diversos trechos do romance, onde encontramos o narrador empenhado em definir o termo grande sertão, que, além de conteúdo geográfico bem nítido, para ele ainda tem outros conteúdos vagos e amplos. Essas definições vão do estritamente mesológico ao simbólico: nelas a narrativa sai mais de uma vez do tom reprodutivo, e o narrador cede a palavra ao romancista. Para que nele nasceu e viveu e com ele se identificou, o "sertão" acaba sendo toda a confusa e tumultuosa massa do mundo sensível, caos ilimitado de que só uma parte ínfima nos é dado a conhecer, precisamente a que se avista ao longo das "veredas", tênues canais de penetração e comunicação. Assim o sinal - : - entre os dois elementos do título teria valor adversativo, estabelecendo a oposição entre a imensa realidade inabrangível e suas mínimas parcelas acessíveis, ou, noutras palavras, entre o intuível e o conhecível.


A forma do romance - uma única narrativa, do fim ao começo, feita pelo fazendeiro Riobaldo, ex jagunço, a um forasteiro - não é casual, mas está organicamente ligada ao próprio assunto. Uma história dessas só pode ser contada pelo protagonista e em primeira pessoa. A indecisão do começo, em que lembranças fragmentadas se sucedem ao sabor das associações, corresponde à hesitação do narrador, que só depõe as reservas depois de ver fixo o interesse do ouvinte, o qual não somente desiste da intenção de prosseguir viagem no mesmo dia, man anota a relação em sua caderneta.

Contudo, o ouvinte permanece invisível do princípio ao fim, e sua presença se percebe pelas apóstrofes do narrador. Esse recurso fértil confere à narração estilo oral e dramaticidade direta, e permite a Riobaldo esmiuçar com toda a meticulosidade suas lembranças mais secretas.

Espantado com a própria sinceridade, tenta este justificá-la muitas vezes, e essas tentativas constituem outro leitmotiv, tão importante com as definições de "sertão". Segundo ele mesmo afirma, narra a vida para no fim consultar o interlocutor: "Quero armar o ponto dum fato, para depois lhe pedir um conselho." Esse conselho, porém, não chega a ser pedido. Riobaldo pretende também relatar o passado para que o forasteiro o explique: "Conto ao senhor é o que eu sei e que o senhor não sabe; mas principal quero contar é o que não sei se sei, e que pode ser que o senhor saiba."Mas não se dá ao estranho oportunidade para tal explicação, e, aliás, Riobaldo sabe que "a vida não é entendível". Afinal de contas, faz a confissão a si mesmo, querendo "decifrar as coisas que são importantes" e preservá-las do esquecimento. "Não gosto de me esquecer de coisa nenhuma. Esquecer, para mim, é quase igual a perder dinheiro." Mas a vontade de lembrar, em Riobaldo, é mais que simples saudade de velho. Desejando reconstruir o seu passado, ele está movido pelo anelo confuso de reafirmar a unidade do seu eu, de sentir que efetivamente desempenhou algum papel ativo nas vicissitudes da própria existência.


Sim, porque precisamente no tocante a isso é que é atormentado por contínuas dúvidas. No cerne mesmo de sua vida há um segredo aterrador a que faz alusões incessantes, mas que não se atreve a enfrentar de vez e do qual se acerca a meias palavras, criando no espírito do ouvinte uma expectativa ansiosa. Suas contínuas indagações sobre a existência do Diabo, a natureza e o poder dele, preparam-nos para algum mistério espantoso. Quando afinal vem a revelação, embora pressentida, não deixa de transtorná-lo, a ele e a nós. Tornam-se então compreensíveis todas as especulações metafísicas do ex jagunço, à primeira vista descabidas: se na solidão de sua velhice ele refez todas as suposições dos teólogos, todas as teorias da demonologia - chegando a intuir no conceito do Diabo a mera concretização de um aspecto da alma humana - foi por tratar de assunto familiar, intimamente pessoal. O mito atávico do pacto com o Demônio é revivido nele sob forma convincente, como experiência possível dentro da nossa realidade.


Corolário do pacto são os acontecimentos inesperados e favoráveis que lhe corrobam a validade no espírito de Riobaldo. Chega a sentir-se onipotente, dono do universo, e então entra a vacilar, a dar passos em falso, a não saber o que fazer e a sentir uma terrível insatisfação. O poder chega num momento em que de nada serve: quando desaparecem os obstáculos à sua paixão por Diadorim, desaparece também o objetivo dessa paixão.


Em redor de um mito universal, Guimarães Rosa conseguiu edificar uma obra de valor universal com elementos indígenas. O seu Riobaldo, esse Fausto sertanejo, ente inculto mas dotado de imaginação e poesia, ao passar revista aos acontecimentos de sua vida aventurosa, enfrenta seguidamente todas as contingências do ser - o amor, a alegria, a ambição, a insatisfação a solidão, a dor, o medo, a morte - e relata-as com a surpresa, a reação fresca de quem as experimentasse pela primeira vez no mundo, reinventando as explicações dos filósofos numa formulação pitoresca e ingênua. Como Miguilim, Lélio, o velho Camilo em Corpo de Baile, o jagunço Riobaldo é trabalhado por inquietações que o fazem sentir a vida diversamente ("Um sentir é do sentente, mas outro é do sentidor") e, em sua linguagem pitoresca de semianalfabeto, descerrar abismos de psicologia e metafísica.

Mas todas as audácias da construção, toda a riqueza do conteúdo filosófico seriam apenas jogos da inteligência, se o sertão de Guimarães Rosa não fosse também, além de símbolo, realidade viva e concreta, com seus bichos, plantas, gentes e superstições admiravelmente descritos; se a narração de Riobaldo não fosse, além de uma teia engenhosamente urdida, um tecido de casos, encontros, acontecimentos e cenas de insuspeita autenticidade; e se a intervenção do sobrenatural não fosse tramada com arte das mais sutis, de modo que nunca entra em choque com o realismo psicológico. A existência do Diabo ou a crença na existência dele ("Não é, mas finge de ser") são explanações igualmente válidas para o destino de Riobaldo.

Com tudo isso, só nos referimos por assim dizer às coordenadas que definem a situação de Grande Sertão: Veredas no plano da ficção. Para avaliar-lhe a importância total, falta um estudo das personagens, do ambiente, dos episódios, do estilo, que constituem um conjunto único e inconfundível, algo de real e de mágico sem precedente em nossas letras e , provavelmente, em qualquer literatura.


1956

A história de Paulo Rónai, o judeu húngaro que a cultura e o Brasil salvaram do nazismo: